Alberto Milfont JrA mídia adora fazer barulho e exaurir um assunto ao extremo, mas nesse caso, um dentre os muitos que acontecem diariamente no Brasil, acho muito difícil. Primeiro que não foi uma criança assassinada, segundo que a Casas Bahia é um dos maiores anunciantes do país. E o compromisso com a informação, com a verdade e sobretudo com a indignação da população com as barbáries que acontecem todo o tempo?

Nessa segunda-feira, Alberto Milfont Jr, 23 anos, um dos jovens beneficiados pela Casa do Zezinho, uma das almas resgatadas da ausência de oportunidades, foi assassinado à queima-roupa, com um tiro na cabeça, deflagrado por  Gilberto Silva Souza, 29 anos, segurança de uma empresa terceirizada contratada pelas Casas Bahia de São Paulo. O jovem havia comprado um colchão e aguardava a namorada, com quem iria se casar e tinha um filho de 5 meses, do lado de fora da loja enquanto ela efetuava o pagamento no caixa. Após uma discussão com o segurança, que alega tê-lo abordado por estar “mal vestido” e suspeitar ser um assaltante, recebeu uma bala na cabeça, fatal.

Gilberto, a pessoa que se diz “segurança”, foi preso em flagrante e alegou legítima defesa, contra um jovem que só portava em suas mão a nota fiscal da compra recém-feita. “Sou cliente, não sou ladrão” foram suas últimas palavras. O crime foi presenciado pela namorada e o amigo que acompanhava o casal.

A Casa do Zezinho divulgou uma nota de repúdio, que ajudo a divulgar, replicando abaixo. Minha forma de expressar a raiva, indignação e solidariedade à família de Alberto.

* Foto retirada do Blog do Tas

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Nota de repúdio e indignação

A Casa do Zezinho está de luto. A ONG Casa do Zezinho mostra seu profundo repúdio e indignação. Um dos seus filhos queridos, o jovem Alberto Milfont Jr, (23), foi barbaramente assassinado dentro das Casas Bahia na Estrada de Itapecerica por um segurança terceirizado, que trabalha nessa instituição, na segunda feira por volta das 16 horas. O segurança, em sua defesa, alega que agiu assim porque simplesmente o jovem estava mal vestido.

O jovem Alberto, mal vestido, morre com a nota fiscal, com comprovante de compra nas mãos.

Enquanto aguardava dentro da loja, “roupa de trabalhador”, sua esposa Darilene (22) voltava do caixa aonde fora pagar a prestação da compra de um colchão. Foi abordado pelo assassino, terno preto. Depois de um bate boca ligeiro o segurança saca da arma e atira à queima roupa. O jovem tomba sem vida.

Suas últimas palavras: Sou cliente, não sou ladrão!”. A partir daí se calou. Calou da mesma forma como estamos calados, sufocados há 400 anos. Que grande equívoco este país!

Mal vestido, roupa de trabalho, é um sinal verde para o braço armado da sociedade, o assassino pago para atirar. Alberto deixa esposa e um filho de 5 meses. Alberto deixa morta a remota esperança de milhares de jovens brasileiros. Estudar pra que? Trabalhar pra que? Ser honesto pra que? Brasileiros alfabetizados, respondam honestamente essa pergunta!

O menino brincalhão, comprido e de pernas finas entrou para a Casa do Zezinho aos 10 anos. Sua turma do Parque Santo Antônio já estava todinha ali. Vai ser muito legal, ali vamos nos divertir para valer. O jovem deixa excelentes recordações em toda nossa comunidade, onde permaneceu como um membro muito querido até 2003.
Estava de casamento marcado com a jovem Darilene, com quem tinha um filho de apenas 5 meses.

Suspeita e pobreza sempre juntas na nossa história.

Nenhum (a) jovem “mal vestido” (leia-se moreno, pardo) da periferia ousa sequer pisar num shopping de grife da cidade sem levantar as mais alarmantes suspeitas. Nenhuma placa, nenhum sinal explcita essa indesejabilidade, como faziam com os negros os norte-americanos. Diferentemente dos americanos, aqui o jovem da periferia já traz gravada na carne, na alma, essa interjeição.

Nenhuma revolta, nenhuma vingança organizada. Nada que a sociedade deva se preocupar. Apenas o destempero de um segurança idiotizado, uma peça para reposição. No Cemitério São Luiz o murmúrio surdo da mãe e da jovem esposa.

Dentes cravados, os jovens cabisbaixos que acompanham o enterro trazem o sangue nos olhos. – O mano Alberto subiu!

Com muita raiva seguimos com eles, solidários, para tentar preservar essa auto estima tão covardemente destruída desde o seu nascimento nas favelas.

A vitória da morte exercida com eficiência certeira desde sempre no país pelo braço armado contratado pela sociedade dominante e pelos seus comparsas que dominam toda a estrutura de poder do estado.

Pras Casas Bahia deixamos como lembrança o carnê saldado com a honra e a dignidade de um jovem trabalhador.

Adeus mano Alberto!